Boa parte da confusão em acordo de máquina começa no vocabulário. Operador fala "deixei em comodato", comerciante entende "aluguel", e na hora do primeiro desentendimento os dois descobrem que nunca combinaram a mesma coisa.
São quatro modelos diferentes circulando no setor, e eles não são sinônimos. Mudam quem assume o risco, quem controla o quê e, principalmente, o que você precisa registrar pra operação não virar discussão.
1. Comodato
Comodato é empréstimo gratuito de bem, previsto no Código Civil. Você cede a máquina ao estabelecimento sem cobrar por isso, mantendo a propriedade do equipamento.
Na prática do setor, o comodato quase nunca aparece sozinho: ele descreve a cessão do equipamento e vem acompanhado de outro acordo que define o dinheiro, normalmente comissão sobre a arrecadação.
O que você precisa controlar:
- Onde está cada equipamento cedido, com número de série ou identificação própria
- Data da cessão e condição em que a máquina saiu
- Quem responde por manutenção, energia e eventual dano
- Como e em quanto tempo a máquina é devolvida se o acordo terminar
O risco típico: perder o rastro do equipamento. Operação que cresce sem controle de comodato descobre, dois anos depois, que não sabe ao certo quantas máquinas tem em campo nem onde. Máquina emprestada e esquecida é patrimônio que virou fumaça.
2. Consignação
Aqui não é a máquina que fica no ponto, é o produto. Você deixa mercadoria, o parceiro vende, e você acerta depois pelo que saiu. A propriedade do produto continua sua até a venda.
O que você precisa controlar:
- Estoque deixado e estoque encontrado em cada visita
- Preço de venda combinado
- Percentual ou valor fixo da comissão
- Regra de avaria, perda e produto vencido
O risco típico: capital de giro imobilizado. Cada ponto carrega um pedaço do seu dinheiro em forma de mercadoria na prateleira dos outros. Muitos pontos com giro baixo significam muito dinheiro parado.
É o modelo que mais depende de registro. Sem histórico de deixado e encontrado, o acerto não existe, vira negociação de memória.
3. Parceria por comissão
O modelo mais comum em máquina recreativa. A máquina fica no ponto, você coleta o que ela arrecadou e repassa um percentual ao estabelecimento.
O que você precisa controlar:
- Valor coletado por visita, por máquina
- Percentual combinado, que costuma variar de ponto pra ponto
- Comprovante do repasse, com o comerciante enxergando de onde saiu o número
- Data de cada coleta, que é o que permite comparar períodos
O risco típico: desconfiança sobre a arrecadação. Como só você abre a máquina, o comerciante depende inteiramente da sua palavra sobre quanto entrou. É o modelo em que transparência no acerto vale mais que qualquer cláusula: mostrar a contagem e entregar recibo resolve quase todo atrito antes dele nascer.
4. Aluguel
O estabelecimento paga um valor fixo pelo uso da máquina e fica com toda a arrecadação. Inverte a lógica dos outros três.
O que você precisa controlar:
- Valor e vencimento de cada contrato
- Recebimentos, inadimplência e histórico de pagamento
- Responsabilidade por manutenção, que precisa estar muito clara
- Estado do equipamento na entrega e na devolução
O risco típico: inadimplência e desgaste. Como a receita do locatário não depende de você, ele não tem incentivo em cuidar do equipamento. E se o ponto render pouco pra ele, o aluguel atrasa.
A vantagem: receita previsível e visita opcional. É o único modelo em que você não precisa ir até lá pra faturar, o que muda completamente a matemática de ponto distante.
Comparando os quatro
A pergunta útil não é qual modelo é melhor, é quem assume qual risco:
- Comodato com comissão: você assume o risco do resultado. Se o ponto vender mal, você ganha pouco. Se vender bem, ganha bem
- Consignação: você assume o risco do resultado e ainda financia o estoque
- Aluguel: o estabelecimento assume o risco do resultado. Você tem receita fixa e teto fixo
Por isso operador experiente raramente usa um modelo só. Usa o que encaixa em cada situação.
Qual usar em cada tipo de ponto
Ponto de alto movimento e perto de você
Comissão. Você quer participar do resultado, e a visita frequente é barata porque o ponto é próximo e rende bem.
Ponto distante que você não consegue visitar direito
Aluguel merece consideração séria. O custo de visitar mata a margem da comissão, e receita fixa sem deslocamento pode render mais líquido do que um percentual maior que você gasta pra ir buscar.
Ponto pequeno, sem espaço ou sem tomada
Consignado. Entra onde máquina não cabe, e serve como teste barato de um local sobre o qual você tem dúvida.
Ponto novo e duvidoso
Comissão com prazo de avaliação combinado. Você não trava capital nem se compromete indefinidamente, e ao fim do período decide com número em vez de impressão.
Comerciante que quer garantia de ganho
Cuidado. Se ele quer valor mínimo garantido independente do resultado, ele está pedindo pra você assumir o risco dele. Pode valer em ponto excepcional, mas precisa entrar na conta como custo fixo, não como cortesia.
O erro que atravessa os quatro
Independente do modelo, o mesmo problema derruba todo mundo: o combinado que só existe na memória dos dois.
Não é sobre desconfiar do parceiro. É que seis meses depois, com dez pontos e acordos negociados em momentos diferentes, ninguém lembra qual ficou em quanto. E a memória de cada lado sempre puxa pro que lhe favorece, sem má-fé nenhuma.
Registre por ponto: o modelo, o percentual ou valor, quem paga o quê, e a data em que isso foi combinado. Quando mudar, registre a mudança em vez de sobrescrever, porque saber desde quando vale o número novo evita a discussão sobre acertos antigos.
Uma observação necessária: contrato é assunto de profissional. Este artigo trata dos modelos comerciais e do que controlar em cada um. Se o valor envolvido é relevante, vale ter o documento revisado por um advogado.
Próximos passos
O VendMaster foi feito pra operar os quatro modelos ao mesmo tempo, que é como a maioria das operações reais funciona. Você registra o modelo e as condições de cada ponto, e o sistema aplica a regra certa no acerto: comissão sobre coleta, cálculo de consignado por estoque deixado e encontrado, controle de equipamento cedido em comodato e acompanhamento de aluguel com vencimento.
Se o seu foco é consignado, veja como calcular a comissão sem erro. Se é comodato, veja controle de comodato: contrato e checklist. E se o assunto é renegociação, como responder quando o comerciante pede mais comissão.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre comodato e consignação?
Comodato é empréstimo gratuito de um bem, normalmente o equipamento, que continua sendo seu. Consignação é deixar produto para venda, com a propriedade permanecendo sua até que o item seja vendido. Um trata de máquina, o outro de mercadoria, e é comum uma operação usar os dois ao mesmo tempo.
Posso usar modelos diferentes em pontos diferentes?
Sim, e é o mais comum em operações maduras. O que não funciona é usar modelos diferentes sem registrar qual vale onde, porque aí todo acerto começa com uma dúvida.
Aluguel é melhor que comissão?
É mais previsível e tem teto. Comissão acompanha o crescimento do ponto mas exige visita e assume o risco do resultado. Em ponto distante, aluguel frequentemente rende mais líquido justamente porque elimina o custo de deslocamento.
Leia também
- Controle de comodato: contrato e checklist
- Negociação com estabelecimentos antes de instalar
- Quanto rende um ponto de consignado por mês